Exausta de me sentir exausta

Carga mental: os impactos na saúde mental das mulheres que, além de profissionais criativas, cumprem a dupla jornada em um trabalho invisível que vale trilhões.

O dia começa com você pulando da cama, já arrependida por não ter resistido a mais cinco minutinhos de sono. Corre e toma banho. Sem nem abrir os olhos direito passa o café, percebe que o arroz e o leite estão acabando e faz uma nota mental “passar no supermercado” na lista enorme de tarefas que só aumenta ao longo da semana.

O cesto de roupa suja está cheio, a lâmpada da lavanderia está piscando. Precisa trocar. Não tem mais um pano de prato limpo na casa. Faz outra nota mental para desmarcar o almoço combinado com a amiga da faculdade porque a cozinha precisa urgente de uma faxina no sábado. Não são nem oito da manhã e já tem cliente mandando mensagem perguntando se a alteração da arte que ele pediu ontem às nove da noite já foi feita. Cansou só de ler essa rotina, né? Pois se você tiver filho, no meio disso tudo, também preparou lancheira, conferiu mochila, acordou e vestiu a criança, travou a briga do “tem quem comer alguma coisa no café da manhã!” enquanto veste a primeira peça não amassada do guarda-roupa e checa a agenda da escola. Daí percebe que há dois dias a professora pediu pros alunos levarem jornal para uma atividade de colagem e se pergunta “quem ainda compra jornal?”. E enquanto você fecha a mochila, chama a criança pra sair, pega as chaves e checa se as janelas estão fechadas, a culpa por não dar conta de tudo bate com força. Mas não dá tempo nem de sofrer, porque às 9h você tem uma reunião que, com certeza, poderia ser um e-mail.

Só quem vive a dupla jornada, sabe

Essa é só uma manhã comum na vida de uma mulher, profissional que trabalha fora. Se você for um homem lendo esse texto, deve estar pensando “que exagero!”. Não, não é! Isso é tudo o que acontece enquanto você provavelmente acorda calmamente, toma um longo banho, se veste com tranquilidade e sai para trabalhar.

Você, homem, já se perguntou por que o papel higiênico nunca acaba? Já se deu conta de que se a roupa está dobrada no armário é porque alguém, que muitas vezes trabalha fora a mesma quantidade de horas que você, lembrou de tirar do varal? Pois é, amado. Não existe a fada mágica que pensa em tudo. Quem faz isso é uma mulher, seja ela sua esposa, namorada, mãe, tia, irmã… que enfrenta uma dupla jornada e que, possivelmente, está exausta.

A segunda edição do estudo “Estatísticas de gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil”, lançada em 2021 pelo IBGE, mostrou que as mulheres  trabalham cerca de 21,4 horas por semana com cuidados de pessoas ou afazeres domésticos. É quase o dobro das 11 horas que os homens dedicam para “ajudar na casa”!

Mas o trabalho não se limita apenas às atividades domésticas em si. Tem também a responsabilidade pelo gerenciamento das tarefas, o trabalho que ninguém vê, sabe? Sim, vamos falar dela: a carga mental.

Pesada, invisível e silenciosa

Além de cumprir sua jornada diária como profissional, seja presencial ou remotamente, e executar as tarefas domésticas, nós, mulheres, precisamos lidar com o trabalho emocional, função culturalmente atribuída a nós e que inclui gerenciar atividades, organizar tudo o que deve ser feito, cuidar do bem-estar da geral, antecipar necessidades… E este, meus amigos, é um trabalho que não acaba nunca e do qual não temos um diazinho de folga.

Ser a responsável pela execução das tarefas e ainda ter que “lembrar de tudo o que precisa ser feito” é o que causa a sobrecarga mental. E durante a pandemia, essa desigualdade na divisão e responsabilidade pelo trabalho e cuidado com a casa e as pessoas da família ficou ainda mais evidente.

As inseguranças causadas por um período de medos e incerteza, o home office forçado e a não separação entre ambiente de casa e de trabalho; o chefe que, além de achar que você estava disponível 100% do tempo, insistia em acreditar que o funcionário em casa trabalha menos (ri muito de nervoso com essa fake news); e tantos outros fatores negativos trazidos pelo confinamento somaram ainda mais peso à carga mental.

Exaustas e doentes

Um estudo feito em fevereiro de 2021 pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, divulgado também pelo Think Olga e o Google Brasil, mostrou dados preocupantes sobre a saúde mental das mulheres durante a pandemia.

Daquelas que participaram do estudo, 45,5% relataram sintomas de depressão, 39,4% de ansiedade e 37,7% de estresse. Ou seja, por causa da sobrecarga e a dupla jornada, além de cansadas fisicamente, as mulheres estão ficando doentes mentalmente.

Um trabalho de trilhões

Embora seja “invisível” e não considerado por muitos como um trabalho, o cuidado com as pessoas da família tem um valor monetário. E não é pouco dinheiro, não, gente! O Laboratório de Exercícios de Futuro da ONG Think Olga pesquisou o tamanho deste “mercado do cuidado” e, pasmem, as quase 22 horas semanais dedicadas gratuitamente ao cuidado por meninas e mulheres em nosso País equivaleria a 11% do PIB nacional. Mais que o dobro do que o setor agropecuário produz. Tá passada? Porque eu fiquei. No resto do mundo, o cenário não é diferente. Esse trabalho do cuidado, de gerenciamento da casa, realizado pelas mulheres equivale a 10,8 trilhões de dólares, representando a quinta economia do planeta. São 12,5 bilhões de horas dedicadas, que poderiam gerar uma riqueza 24 vezes maior que a do Vale do Silício, por exemplo. É três vezes maior que toda a indústria de tecnologia do mundo.

A culpa é... do patriarcado

Ok, agora a gente já sabe que o trabalho emocional, que acarreta em carga mental, pesa muito, porém segue desvalorizando e destinado, na maioria das vezes, às mulheres. Mas, a pergunta que não quer calar é “Por quê? Por que elas querem loucamente abraçar mais essa tarefa?” Não, definitivamente, não.

Historicamente, e por causa da estrutura patriarcal da nossa sociedade, a administração da casa foi entendida como algo exclusivamente ligado ao universo das mulheres e que elas fazem quase que por instinto. Grande bobagem. Esta visão faz parte de uma construção social. Não há elementos biológicos que digam que as mulheres são mais capazes ou devem ser responsáveis por uma atividade ou outra.

Igualdade de gênero é a solução

Lutar por igualdade de gênero, o que, sim, implica em compartilhar e valorizar tarefas com carga mental, em todas as áreas da sociedade e em todos os ambientes, sejam eles domésticos, de trabalho, na política… é bom para todo mundo.

Organizando direitinho, ninguém fica sobrecarregado, todo mundo é valorizado e – atenção mercado! – mais produtivo. Pessoas que compartilham igualmente tanto as tarefas domésticas quanto o trabalho mental (são lares unicórnios, acredito eu) conseguem se dedicar, se quiserem, à carreira de forma igualitária. Sendo assim, todo mundo envolvido no núcleo familiar cresce, se desenvolve pessoal, profissional e financeiramente, o que, por consequência, favorece a sociedade como um todo e também a economia. É um baita negócio! Inclusive, de acordo com a Agenda 2030 da ONU, que reúne 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), a igualdade de gênero é um dos pilares para a construção de um mundo melhor para todas as pessoas. O ODS 5 é inteiramente dedicado a explicar as metas para alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas.

Como aliviar a barra das minas

Como a gente já sabe, não há nada que impeça homens e mulheres de fazerem as mesmas tarefas. Para dividir a carga mental é preciso ir além da divisão do trabalho doméstico e fazer o que precisa ser feito sem ninguém pedir.

Mas se quiser ir além no jogo da vida, pode ousar ainda mais! Espalhe essa palavra para todo mundo, olhe as mulheres e responsáveis pelo lar com empatia e estude. Aí vão algumas dicas para você refletir mais sobre o tema e  pensar duas vezes antes de dizer a alguma mulher que você não fez algo porque ela “não pediu”.

Troque ideia com outras profissionais sobre a rotina delas para você entender onde o bicho pega! O Coletivo Pejota, a propósito, é um excelente lugar para conhecer pessoas da mesma área que você, mas que vivem realidades de vida diferentes.

E, claro, desconstrua o mito de que tem coisas que só mulher faz. Para isso, recomendo ouvir o episódio “Sua carga mental também pesa uma tonelada?”, do podcast Donas da P* Toda.

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Ana Brum
Ana Brum, publicitária, especialista em Branding pela ESPM, atualmente Brand Strategy Consultant at FutureBrand, Leader Of Community Learning at Share e Creative Director da Antisobrinho. Já colaborou em projetos de marcas como Fiat, Iveco, Chilli Beans, CCBB e Pinterest. Acompanhe a Ana: Instagram | Linkedin
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