Ana brum

A tiktorização e a ditadura da produção de conteúdo para se vender

Os perfis de profissionais e a insanidade que é tentar seguir uma rotina de entregar os jobs em dia, atender cliente, fazer contrato, estudar, dançar, produzir conteúdo e ainda posar pra foto como se a vida estivesse plena, calma e com tudo resolvido. Estava aqui rolando o feed eterno dos reels no Instagram e depois do Tiktok e, em apenas alguns minutos, me deparei com uma influenciadora fazendo uma dublagem que outras duzentas mil já fizeram, uma nutricionista sambando e apontando freneticamente para todas as palavras que apareciam no vídeo e que, aparentemente, são os motivos para comer mais ovo, e também uma blogueira fitness em uma publi de bala de goma que faz o cabelo crescer ao estilo vídeo challenge, daqueles “pulou e o cabelo cresceu”.  Mas nada, nada partiu mais o meu coração do que um designer anunciando master class para ensinar “os segredos do post perfeito” ao som de Doja Cat, ou uma redatora, que eu sei que odeia aparecer em vídeo, dando dicas de “como fazer legendas que engajam”. Larguei o celular e pensei “meu pai amado, está todo mundo mundo literalmente dançando!”. Ah! Já vou esclarecendo aqui que não tenho nada contra as dancinhas, até tenho amigos que fazem (eu já fiz!). Mas tenho tudo contra a tiktorização, ou a ditatura da dancinha e produção de conteúdo não planejada e sem propósito, principalmente quando falamos em perfis de profissionais que, muitas vezes, negligenciam o próprio trabalho e fazem um esforço absurdo para encaixar a última trend conteúdo em seu nicho de atuação. 

Quer postar? Posta. Mas é de bom tom?

Antes de decidir se você será o novo profissional dançarino da internet, vale voltar umas casas e responder a questões como:

  • Qual é o meu objetivo em ter um perfil profissional?
  • Qual é o meu público? Como esse público consome conteúdo? 
  • Criar conteúdo sobre meu produto ou serviço é algo que eu quero e sei fazer?
  • Existem outras formas de divulgar meu produto ou serviço?
  • Em quais redes sociais quero/ preciso estar?

Essas são apenas algumas perguntas básicas para se fazer antes de sair por aí entrando em tudo o que é rede social porque algum guru te disse que você vai vender milhões no Instagram fazendo conteúdo ou vendendo cursos.  O que nos leva a uma outra informação crucial que muitas pessoas ignoram: produzir conteúdo com o intuito de lucrar é um trabalho e não um hobby. Se você é um designer e acredita que se divulgar pelo Tik Tok é uma boa ideia, lembre-se de que vai precisar dedicar um tempo para planejar e produzir o seu conteúdo, o que implica em ter menos tempo para a sua profissão, que é ser designer, e também para atender os seus clientes e lidar com toda a parte administrativa da sua empresa, principalmente se você for CEO de MEI.   Eu vejo muitos profissionais bons e dedicados se frustrando por acharem que não são ativos nas redes sociais quanto acreditam que “deveriam” ser, por julgarem que não estão à altura de pessoas que exibem um estilo de vida bem-sucedido e uma rotina em que quase não se vê corre, apenas close.  Atire a primeira pedra quem nunca comparou a bagunça da própria mesa com o ambiente clean e hiper organizado do escritório de um “profissional-influencer”, que até iluminação indireta e água na taça tem.  Isso leva muita gente à frustração, baixa auto-estima profissional, sensação de não estar se dedicando o suficiente, ansiedade, insegurança… e nessa vibe segue a lista de danos emocionais. Nos últimos dias, inclusive, rolou uma discussão muito boa lá no Coletivo PJ sobre o direito de ser um criativo low profile e não instagramável. O papo rendeu até um post sobre o tema lá no perfil da Antisobrinho.  Precisamos entender que não devemos nos culpar por não estarmos presentes em todas as redes sociais, divulgando em todos os canais e expondo o que não gostaríamos de expor. Se você chegar à conclusão de que fazer conteúdo não é estratégico para você, fique em paz, ninguém é obrigado a nada. 

Sua mãe estava certa: você não é todo mundo

É inevitável. Aquele dia em que um jovem fala sobre algo que é trending topics no Twitter e você pergunta “o quê é isso?” chega pra todo mundo. E eu sei que rola um super desespero quando percebemos que estamos por fora de coisas que todo mundo está fazendo ou falando. Vem aquela sensação que já tem até nome: FOMO (Fear of missing out) ou, no bom português, “medo de perder algo”.  Quando as dancinhas começaram, muita gente se adaptou rápido e botou pra quebrar; outras passaram ilesas e resistiram ao insistente hit “vai se tratar, garota”. Seria esse segundo grupo composto por um bando de cringe? Talvez. Mas talvez algumas pessoas entenderam que elas não precisavam fazer o que todo mundo estava fazendo porque, antes de saírem dando soquinho na cabeça, se fizeram as perguntas que listei anteriormente e chegaram à conclusão de que seu negócio poderia ser divulgado de outras formas.  Lembrando que, obviamente, o formato de vídeo com entretenimento (porque, sim, dancinha tem a função principal de divertir) com informação sobre sua área de atuação, produto ou serviço, é muito válido para vários tipos de negócios e conversa com diversos públicos. Mas você só vai saber se deve investir neste tipo de comunicação se o seu propósito e estratégia de produção de conteúdo estiverem bem definidos.  Caso contrário, você só vai ficar cansado, sobrecarregado de tarefas, vai perder o foco do seu trabalho e irá se expor à toa. 

Você quer fazer fama ou fechar negócio?

Não há nada errado em querer fama, ser influencer, ganhar mimos… levar o estilo de vida blogueiro de ser. Porém, se uma pessoa quer deixar de trabalhar na sua profissão para ser influencer, o ideal é que ela não se coloque como um representante da área ou um influencer da profissão. Ser influencer, gente, é outro trabalho. Do mesmo modo que se  uma pessoa quer vender os seus serviços de ilustração, por exemplo, e ter contratos assinados, precisa focar em expor o seu trabalho, diferenciais e valores. Daí tanto faz se vai fazer isso  com dancinha ou não. Tudo depende do objetivo e da estratégia.  Aqui fica uma última reflexão: você pode até alcançar muitas pessoas produzindo conteúdo freneticamente, atendendo a toda nova onda, que agora é a dancinha, mas amanhã certamente será outra, no entanto, quais serão os benefícios reais e palpáveis desse alcance? 

Existe cliente fora das redes sociais

Se não é preciso fazer conteúdo a torto e a direito só para atender a uma demanda que não vem do seu público alvo, como então fazer contatinhos rentáveis sem ferir sua essência e de forma que gere resultado para o seu negócio?  Há alguns caminhos possíveis, desde que você entenda claramente o que faz e como seu público tem interesse em saber do seu serviço. 

  • Foque nas pessoas-chave: Pense em alguém que faz brigadeiro e tem interesse em vender na região onde mora. Seria mais eficiente para essa pessoa divulgar produzindo conteúdo sobre brigadeiro no Instagram e alcançar milhares  de perfis que não poderá atender, ou selecionar alguns estabelecimentos pelo bairro para oferecer degustação e divulgar para pessoas que poderão, de fato, comprar os brigadeiros? O boca a boca nunca falha. Faça com que as pessoas certas acessem o que você quer vender.
  • Unidos venceremos: Muitas vezes é mais produtivo e mais fácil trabalhar com parcerias. E no mercado criativo, muitas vezes, são realizados projetos multidisciplinares que exigem profissionais com um perfil colaborativo. Um redator, por exemplo, sabe que em alguns trabalhos será preciso um designer. Quando a oportunidade surgir, seja generoso e indique pessoas cujo trabalho você gosta e com as quais você pretende se conectar. A indicação, quando bem feita, cria um ciclo virtuoso que geralmente  volta para você.
  • Eventinho nunca é demais: Além de divulgar seus serviços para o público ideal, as pessoas do seu segmento de atuação precisam ver você. Participar de cursos e palestras de atualização, onde você vai aprender mais e conhecer profissionais com quem poderá fazer parcerias, é tão importante quanto estar em eventos onde o seu cliente está. Um fotógrafo de gastronomia, por exemplo, precisa estar nos grandes eventos da área, falando com donos de restaurantes, produtoras de eventos gastronômicos, editores de revistas deste universo… e por aí vai. 
  • Encontre sua turma: É bom saber circular por muitos lugares e desenvolver habilidades sociais para falar com vários tipos de pessoas, mas é óbvio que você não precisa circular em ambientes que não suporta ou se relacionar com quem tem valores extremamente opostos aos seus. Volto a lembrar: se conheça, saiba o que quer e respeite isso. Por isso, é muito importante encontrar um ambiente seguro para chamar de seu. Um exemplo de comunidade criativa da qual eu me orgulho de participar é o Coletivo PJ. Por lá, a gente reúne profissionais do mercado criativo para trocar experiências, aprender juntos, compartilhar dores, alegrias e, claro, oportunidades de parcerias de trabalhos. 

Estar nas redes sociais e criar conteúdo pode ser um apoio para você como profissional porque é relevante ter uma presença digital, mas o online não é o único lugar para se estar. Portanto, saber se relacionar de forma estratégica é uma habilidade que você precisa desenvolver se quiser crescer como profissional.  Não se esqueça: alcance com conteúdo não significa venda, número de seguidores não é sinônimo de quantidade de clientes, seguir trend e dancinha, por si só, não configura prospecção para a sua empresa. Não adianta seguir a modinha da vez se ela não for funcionar para o seu negócio. 

ANA

Ana Brum

 Líder de Aprendizagem em Comunidade no Share e criadora da comunidade online Antisobrinho

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