Cursos de Férias do Share

por Ana Paula Passarelli, PASSA

Uma pesquisa britânica feita com 14 mil crianças mostrou que ser um Youtuber já é a 4ª opção de carreira que crianças de 7 a 11 anos querem ter “quando crescer”, mas quando a pesquisa divide essas aspirações entre gêneros os números mudam. A principal escolha de carreira para meninas foi professora (19%), seguida por veterinária (11%) e esportista (9%), enquanto que para meninos era esportista (34%) seguida por youtuber (9%) e policiais (8%). As meninas nem cogitam que fazer vídeos online possa ser algo interessante para o futuro profissional delas e fica ainda pior na vida adulta.

Inoka Amarasekara é pesquisadora em comunicação científica e analisou mais de 23 mil comentários postados em vídeos de criadores que fazem conteúdo para YouTube nas categorias de Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM) e o resultado: o Youtube é um ambiente hostil para as mulheres que criam vídeos centrados em ciências. A pesquisa mostra que cerca de 14% dos comentários para as mulheres eram críticas, contra 6% dos comentários feitos para os homens. A pesquisa ainda apontou que as mulheres recebem uma proporção muito maior de comentários sobre a aparência (4,5% para mulheres x 1,4% para homens) e três vezes mais comentários sexistas ou sexuais do que os homens. Comentários como “Ela é tão feia que quase vomitei”, “Eu só tava olhando os  peitos ….. digo os olhos.”, “Volte para a cozinha.” ou “Você não pesquisou direito, cala a boca!” são comuns em vídeos postados por mulheres no Youtube (eu mesma já fui alvo deles).

O comportamento das pessoas na internet é um reflexo de como se comportam no ambiente físico, a diferença é que no ambiente digital, as pessoas se sentem mais poderosas atrás de um teclado para expressar suas opiniões. Esse “empoderamento” faz com que homens assistam vídeos feitos por mulheres esperando que: sejam bonitas, delicadas e exibicionistas ao bel-prazer deles, mas quando não são, elas são duramente criticadas e silenciadas.

Silenciamento de longa data

Recentemente li um livro chamado “Mulheres e Poder: Um Manifesto” da Mary Beard (indicação da Catia Andressa), que cita uma passagem da Odisséia de Homero, essa que teria sido o primeiro exemplo registrado de um homem mandando uma mulher “calar a boca” dizendo que sua voz não deveria ser ouvida em público. Beard diz que na visão de Homero, parte do amadurecimento, no caso do homem, é aprender a assumir o controle do pronunciamento público e silenciar a mulher.

A Odisséia de Homero foi lançada no século VIII a.C. e ainda consegue ser tão contemporânea ao mostrar como os homens agem com as mulheres quando elas querem expor a sua voz a fim de compartilhar conhecimento e não para agradá-los. Trazendo para 2018 e para dentro do Youtube, se a mulher não está fazendo vídeos sobre assuntos que as tornem mais belas e submissas, ela então deveria estar calada.

Como mudar?

Esse comportamento cristalizado tem impedido muitas mulheres de cogitarem “serem ouvidas”, seja no Youtube ou nas empresas como parte das suas decisões profissionais. Tenho atendido diversas criadoras que passam pelo mesmo problema, querem desistir do YouTube e até mesmo de seres criadoras porque estão cansadas. Eu sei que cansa. Mas a mudança não vai vir com flores. A gente vai precisar brigar por espaço, ignorar esses comentários e não deixar que palavras machistas fortalecidas por um teclado possam nos atingir.

Quando eu brigo por espaços para que mais mulheres estejam nos palcos dos eventos se apresentando, vocês não fazem ideia do que eu tenho que ler e ouvir. Quando seguro na mão de uma criadora e digo para ela não desistir, faço isso lembrando à ela (e a vocês) que nossa voz é ato político e que ela deve e vai ser ouvida. Lembrem-se que aquelas meninas que nem cogitam ser criadoras poderiam ver em vocês a referência que pode mudar esses números.

Para os profissionais que trabalham com criadores: busque novos nomes para o seu mailing, o Brasil tem mais de 500 mil canais profissionais no Youtube, você não precisa ficar só na bolha dos amigos influs~.

E para os caras que leram até aqui, parem de agir como agiam há 3 mil anos atrás. Reflitam sobre como vocês costumam interagir com o conteúdo criado por uma mulher (especialmente em STEM), você também tem praticado esse silenciamento? Seja parte da mudança e incentive o trabalho de mulheres que querem ter sua voz ouvida, porque agir como agiam os homens na Odisséia de Homero em 2018, não será mais aceito.


Cursos de Férias do Share

Talvez você possa gostar